A dor do descenso: A crônica de uma queda lenta e dolorosa

Mortes lentas e dolorosas também doem. São as mortes mais terríveis. A morte rápida é linda pra quem morre: sem sofrimento, sem sofrer a tristeza da despedida… Um instante e tudo acaba. Quando a morte é lenta é diferente: a doença corrói, a tristeza de uma despedida aos poucos é estampada na cara, todo mundo que cerca essa morte vive o sofrimento abraçado a apenas um sentimento: a esperança de um milagre. Mas não é sempre que acontece o milagre. Quando a doença é agressiva e o paciente não segue o tratamento então, é morte na certa. Foi o que ocorreu com o JEC nos últimos quatro anos.

Tudo começa no momento de maior alegria. O acesso escancarou o orgulho de uma cidade que se pintou em preto, branco e vermelho. A festa não teve hora pra acabar. Mas o JEC abusou nessa festa. Cobrou dos convidados, ao limitar o número de sócios, aumentar as mensalidades e cobrar 13ª mensalidade obrigatória em 2014 (aprovada três dias depois do acesso). Não soube escolher os anfitriões, quando entregou as chaves do clube, no meio da competição, a um técnico que rachou o grupo ao meio, trouxe jogadores ineficazes para o desafio, e que custou caro demais. A grana da Série A acabou. Imagino que a da Série B já ficou pendurada ali. A festa desandou. Começou a tragédia.

Insatisfeito, em 2016 o JEC, já com nova presidência, faz tudo errado de novo. 4 técnicos no ano, um gerente de futebol inqualificável e novo exagero nas contratações. Novo rebaixamento. Finanças comprometidas. E, com tantas contratações, as obrigações trabalhistas começaram a ser deixadas de lado. Processos à vista.

Paralelo nos dois anos: a arrogância. Em 2015, por se achar o maior do Estado, e por ter exemplos que deram certo em SC, o JEC achou que a manutenção na Série A seria tranquila. Passou vergonha. Em 2016, achou que a experiência na série A o credenciaria a brigar por novo acesso. De novo, não deu em nada. Em 2017, entrou se achando o favorito. Novo festival de contratações, novas mudanças de técnico, nova decepção. Ficamos na C.

O fim do ano de 2017 foi de crise. Veio 2018 e um bom planejamento de pré-temporada. O JEC no Estadual não era um primor, mas tinha organização. O problema é que perdia os clássicos – para equipes que disputam as divisões superiores. Ao assumir, a nova diretoria não manteve as convicções deste planejamento. Novas mudanças. E aí entrou a parte de responsabilidade dessa diretoria. Não entregou o departamento de futebol para alguém. Criou um comitê com pessoas inexperientes na função. Resumiu a montagem do elenco em peças (incluindo o primeiro técnico) de apenas um empresário. Ao ver que deu errado, mudou tudo de novo. Viu a credibilidade do clube se exaurir. Era tarde. Não tinha como dar certo.

Caímos.

Já vínhamos dando sinal da perda da nossa força: a credibilidade arranhada, o respeito perdido, o clube que “pagava em dia” já não era um bom pagador, a torcida que colocava dez mil pessoas já tinha se enfraquecido – o que se compreende com tanto sofrimento e desesperança – e colocava duas, três mil pessoas no máximo. Até esse blog anda meio parado. Na real todo mundo torcia, tinha fé, mas andava – e anda – meio cansado. Isso também é um erro, por mais compreensível que ele seja. Se a torcida não consegue mais demonstrar sua força, é sinal de que algo está muito errado.

Caímos todos. Choramos todos. Aprenderemos a lição dessa vez? Achei bacana a carta do JEC ao seu torcedor no fim do jogo e espero que, quando se fala em “decisões precipitadas, equívocos dentro e fora de campo e até a falta de um planejamento mais digno da história do Joinville” essa diretoria saiba que ela também falhou em todos esses pontos, assim como as últimas duas gestões falharam. A culpa não está apenas no passado. Está no presente.

É necessário olhar para o futuro. Saímos do inferno, passeamos no céu e voltamos à “mansão dos mortos”. Porém a morte aqui não é o fim. Precisará ser um novo renascimento. Todos nós podemos contribuir para isso. Basta força e, mais do que isso, que quem representa o clube queira. Mas isso é papo pra depois. Por enquanto é isso. Vamos embora, porque ainda está doendo muito.

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