“Tem uma história por trás do clube e você tem que respeitá-la”: as projeções de Maringá para 2016

2015 não é um ano a se apagar na memória. É uma lição. É assim que resume a temporada passada um dos ícones tricolores nos áureos tempos do Coelho de Santa Catarina, João Carlos Maringá. “Foi uma série de erros, faltou know-how. Série A é muito difícil, o Joinville planejou mal principalmente no início e, na minha opinião, foi esse início que rebaixou o JEC”, disse o agora mandatário Maringá.

O paranaense ainda falou de 2014, onde observou a competência de Hemerson Maria e resumiu como uma temporada “fantástica”. Comentou também sobre a perda do título do estadual de 2015, que considerou parcialmente culpada pela falta de rendimento no estágio inicial do Brasileirão da série A, e as expectativas do torcedor e do clube para 2016. Segundo João Carlos, “tem uma história por trás do clube e você tem que respeitá-la”. Para respeitá-la, aparentemente os homens fortes do futebol tricolor vão montar um time forte para esta temporada. “Estamos planejando com muita cautela o nosso 2016, estamos estudando tudo com calma, e é claro que o nosso acesso é a prioridade. O campeonato catarinense, depois do ano passado, não que não exista motivação, mas não é prioridade”, cravou, completando ainda que “o Joinville com certeza vai correr por fora”.

Essa entrevista exclusiva do Sou JEC com o Maringá, você pode conferir na íntegra a seguir.

João Carlos Maringá volta ao Joinville mas ao invés de correr em campo, precisa correr fora dele (Foto: Reprodução/Joinville Esporte Clube)
João Carlos Maringá volta ao Joinville mas ao invés de correr em campo, precisa correr fora dele (Foto: Reprodução/Joinville Esporte Clube)

SOU JEC: 2014. Joinville, campeão brasileiro da segunda divisão. O título foi, e a torcida sabe disso, nosso maior título, talvez equiparável aos oito títulos juntos do octa catarinense. Você acompanhou o JEC ano passado? O que destacaria de 2014? 

MARINGÁ: 2014 o Joinville teve um ano fantástico. Eu acompanhei a Série B toda, o Joinville tinha um time compacto, taticamente o Hemerson conseguiu montar um sistema muito bom, que culminou com o título. Acho que foi um dos grandes títulos da história do clube e, por ser torcedor, fiquei muito feliz com essa conquista.

SOU JEC: O Maringá sai do Joinville como jogador, ainda em tempos gloriosos, áureos, e retorna como profissional forte da bola numa situação crítica. Você voltou pelo desafio profissional ou pelo amor ao clube, à cidade de Joinville? Como você descreve essa relação Joinville/JEC com o João Carlos Maringá? 

MARINGÁ: Essa minha volta ao Joinville Esporte Clube, como diretor, superintendente de futebol, ela aconteceu muito em função da minha história dentro do clube, e por amar o clube eu não podia me furtar de tentar ajudar o Joinville num momento crítico dentro da competição. Infelizmente fizemos tudo que nós podíamos mas o Joinville não conseguiu, muito em função da armação do time, da parte técnica, nós não conseguimos nossos objetivos. Mas minha relação com o clube vai além do jogador, do dirigente, Joinville está no meu coração, meus filhos nasceram em Joinville. Eu nunca deixei de torcer para o Joinville enquanto estive fora, então eu não poderia deixar de aceitar um chamado do presidente para tentar ajudar num momento difícil da história do clube.

João Carlos Maringá brilha junto aos também brilhantes Vágner, Válter, Carlinha e Nardela na Bola de Prata da revista Placar na época dourada do Joinville na elite brasileira (Foto: Divulgação)
João Carlos Maringá brilha junto aos também brilhantes Vágner, Válter, Carlinha e Nardela na Bola de Prata da revista Placar na época dourada do Joinville na elite brasileira (Foto: Divulgação)

SOU JEC: Antes mesmo de você chegar, ganhamos um título em campo mas perdemos fora dele por, entre outros motivos, incompetência profissional dentro do clube. É claro que aí tem os méritos judiciais, se foi justo ou não… Mas o fato é que perdemos. Você acha que isso afetou o grupo remanescente no Brasileirão? 

MARINGÁ: Para começo do campeonato, logo após dessa perda na justiça, acho que isso interferiu no começo muito ruim. Porque quando você tem atletas remanescentes, acho que isso influencia, não justifica, mas afetou sim.

SOU JEC: 2015, pelo Catarinense perdido, pela campanha do Joinville na Série A, pelo desastroso rendimento na Copa do Brasil e também na Copa Sul-Americana… Isso tudo o clube apaga ou leva como lição? E o que é lição disso tudo? 

MARINGÁ: Realmente 2015 foi um ano muito ruim para o Joinville. Algumas lições precisam ficar para 2016, principalmente nas contratações. Esse negócio de trazer três e mandar três embora numa só semana, isso foi muito prejudicial ao JEC. Você tendo planejamento, você forma um grupo, e com confiança nesse grupo você tem união. Foi uma série de erros, faltou know-how. Série A é muito difícil, o Joinville planejou mal principalmente no início e, na minha opinião, foi esse início que rebaixou o JEC.

SOU JEC: O que faltou para a permanência? 

MARINGÁ: Acho que não foi um motivo só que nos levou ao rebaixamento. Faltou um planejamento melhor. O torcedor, o comum que paga ingresso e principalmente o nosso sócio, comprou a Série A, mas a cidade não. Faltou o empresariado, o poder público. Você engajando a cidade, é uma cidade, uma região inteira contra o Brasil, e isso se torna muito forte. Se houvesse mais apoio financeiro, e digo isso porque o Joinville tinha o menor patrocínio de camisa, talvez a diretoria pudesse contratar atletas melhores e conseguisse salvar o JEC na Série A.

Maringá com a camisa tricolor (Foto: Divulgação)
Maringá com a camisa tricolor (Foto: Divulgação)

SOU JEC: Bom, é claro que o torcedor ainda está chateado com o rebaixamento, mas já anseia pela próxima temporada. 2016 vai ser um ano melhor? Quais vão ser as prioridades do Joinville no ano que vem? 

MARINGÁ: Entendo perfeitamente a frustração do torcedor. Mas o que percebi é que o torcedor acredita, ele não desiste do Joinville. Estamos planejando com muita cautela o nosso 2016, estamos estudando tudo com calma, e é claro que o nosso acesso é a prioridade. O campeonato catarinense, depois do ano passado, não que não exista motivação, mas não é prioridade. Até por causa do investimento, Chapecoense e Figueirense devem correr como favoritos e o Joinville com certeza vai correr por fora.

SOU JEC: Nosso último estadual foi em 2001. Desde então, acumulamos ‘quases’. O Maringá, que tanto honrou o manto tricolor e deu alegrias e títulos catarinenses à torcida, acha que é hora e obrigação do Joinville vencer no ano que vem? Mesmo com alguns rivais na Série A, por exemplo? Ou não tem esse papo e o estadual virou obrigação? Vai ter força máxima ou se não der, não deu, levanta a cabeça e foca no Brasileirão? 

MARINGÁ: O Joinville tem a obrigação de ir forte pro campeonato estadual. Tem uma história por trás do clube e você tem que respeitá-la. É claro que, como eu falei, existe Chapecoense e Figueirense – principalmente esses dois – que vem com orçamentos muito altos, de série A. E o Figueirense com a cota da Sul-Minas (Primeira Liga). Mas o Joinville entrando em campo tem obrigações. Tenho dito que independentemente de colocar jogadores da base, os jogadores precisam estar preparados para saber a importância de jogar no Joinville. O JEC é um time multicampeão, que sempre que entra em uma competição tem que entrar para ganhar. Mesmo sabendo que a obrigação maior é dos outros times, vamos entrar fortes com o intuito de usar uma base para a série B. Então como queremos fazer uma grande série B, precisamos fazer um grande Catarinense.

SOU JEC: O Joinville pode ser campeão da Série B de novo? Ou isso sequer é cogitado internamente como foco? 

MARINGÁ: O Joinville tem know-how de série B. Entramos com o objetivo claro de subir, o acesso é prioridade, não importa se formos quarto lugar, porque o quarto colocado sobe. É claro que com planejamento e engajamento da torcida e dos jogadores, do Joinville como clube, o título pode vir como brinde, como foi em 2014. Mas o Joinville em 2016 vai entrar na série B no seu limite, mirando na série A de 2017. Se vier com título, melhor, mas vai ser muito difícil, vai estar muito equilibrado. Vamos lutar para estar entre os quatro melhores.

SOU JEC: A notícia da volta de Lima foi muito questionada pelo torcedor e dividiu opiniões. Por que o Maringá queria o Lima vestindo a camisa tricolor novamente? 

MARINGÁ: A questão do Lima realmente repercutiu bastante,e naquele momento, depois do rebaixamento, foi importante todo esse destaque. O que aconteceu é que ficou evidente em 2015 que precisamos de um matador, um atacante de referência e entre vários nomes surgiu o Lima. É claro que o torcedor do Joinville conhece mais o Lima que o Maringá, e realmente depois de ver que quase ninguém queria o Lima de volta, achamos que por respeito ao torcedor era melhor encerrar as negociações.

SOU JEC: O JEC nunca foi muito longe na Copa do Brasil: só passou de fase uma vez na história, quando passou do Aracruz mas caiu em seguida pro Santos do Neymar. O título da Copa do Brasil é sonho distante pro Joinville? Por que o JEC não consegue passar de fase e cai até para times sem expressão? O que conta mais na hora da preleção: o desafio de ir mais longe ou a remuneração que cada fase a mais dá ao clube? 

MARINGÁ: Eu acho que a Copa do Brasil é muito importante, o Joinville esse ano vai jogar novamente e acho que se você se preparar, você pode pelo menos ir passando de fases. Acho que título é um sonho distante mas não impossível. Mas é importante ir passando de fase, até pela boa remuneração que se gera a cada fase alcançada, e principalmente para dar ao torcedor essa alegria de avançar numa competição tão importante, a segunda maior disputa do futebol brasileiro. Então com planejamento dá para ir mais longe, sim.

SOU JEC: Para jogar no Joinville, o torcedor lembra que sempre teve cartilha na gestão do Nereu, que chega ao fim ano que vem. No entanto, a promessa de não trazer medalhões durou até a vinda do Paraíba nesse ano. Qual perfil o atleta tem que ter para o Maringá aprovar? Medalhão vale a pena se for bom e barato ou é melhor não correr o risco? 

MARINGÁ: Essa questão de medalhão é relativa, a euforia pode durar uma semana. Já aconteceu de clubes trazerem jogadores conhecidos e em uma semana a torcida vaiar esses jogadores. É preciso ser realista e reconhecer que se o jogadores estiver em alto nível não vai vir para o Joinville, e dependendo da idade e disposição, 34, 35 anos já pode ser ex-jogador e o Joinville não precisa disso, só por propaganda, o JEC não precisa de jogador que venha pra ser notícia. O que nós temos que trazer é jogador que venha ajudar o Joinville a retomar o cenário que merece. É jogador comprometido com o torcedor, que honre a suada parcela do sócio jequeano. Se der pra trazer jogador conhecido e bom, se estiver nas condições do JEC, é claro que vamos trazer. Mas o foco é trazer quem defenda nossas cores com amor.

SOU JEC: Treinador é feito de resultado. O torcedor adora pedir a cabeça do técnico quando o time vai mal. Em quais situações o Maringá aceita e quando o Maringá reprova a demissão do treinador? O que é preciso para ficar no clube mesmo com uma sequência de cinco, seis jogos sem vencer? Trabalho basta? 

MARINGÁ: A questão do técnico, você tem que ter consciência quando contratar ou realizar a manutenção desse treinador como é o nosso caso. Acho que deu para perceber meu perfil, o PC perdeu muita partida, mas ele arrumou o time, se você observar dificilmente um time foi muito superior ao Joinville. Esbarramos na questão de limite técnico. O que importa então é a questão do trabalho, tem que dar tempo. Não é na primeira pressão que tem que mandar embora. Dirigente tem que passar calma ao treinador nos momentos mais difíceis. Se demitir treinador fosse a solução, os clubes brasileiros estariam no topo do futebol mundial, e não é assim que funciona.

SOU JEC: A torcida e parte da imprensa costumavam dizer que o Nereu adorava dar ‘pitaco’ na escalação do treinador – o que acabou até se confirmando em algumas entrevistas coletivas. Na sua opinião, até que ponto os palpites do presidente e da comissão técnica, departamento de futebol são válidos? Existiu ao longo de 2015 esse tipo de debate com o PC Gusmão?

MARINGÁ: A questão do Nereu virou mais um folclore, até ele mesmo já brincou com isso nas entrevistas, “dizem que eu que escalo o time”. Acho que a função do presidente é comandar, organizar o clube, e do departamento de futebol obviamente cuidar do futebol. É claro que o presidente está acima do departamento, e pode eventualmente exigir uma reunião para cobrar ações desse departamento. No meu caso, que sou superintendente de futebol, e isso em todos os treinos, não tem nenhum obstáculo de você debater a própria escalação: “olha, o fulano tá treinando melhor, o ciclano tá jogando bem”. Acho que o clube é tão grande, não pode ficar dependendo de uma pessoa só para definir o futuro. No meu caso, assisto todos os treinos, é válido cobrar reuniões para questionar sobre desempenho, porque quem faz a escalação é o treinador, mas se for mal o desempenho do time, não é só o treinador que sofre as consequências, é o clube, o dirigente.

 

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