Elas por elas: as jequeanas no Dia Internacional da Mulher

A frase do dia é: lugar de mulher é onde ela quiser. Em tempos de luta por igualdade entre gêneros e empoderamento feminino, decidimos deixar que as mulheres falem. Então, com a palavra, as torcedoras mais sofredoras deste Brasilzão de Rainha Marta. Com a palavra, elas, por elas mesmas.

“A Arena também é sua, mulher”

Adrieli Evarini, jornalista

Volta e meia imagens de mulheres nos estádios pelo Brasil são compartilhadas e em grande parte delas, a legenda que as acompanha é que “lugar de mulher é onde ela quiser”. Mas eu fico me perguntando: até onde o discurso sai da tela do computador e passa para as arquibancadas? É muito fácil tomar o lugar de fala na internet e continuar achando que aquelas arquibancadas do estádio do seu time e dos adversários são lugares quase que exclusivos dos homens. Quase, porque a mãe e a namorada sempre podem né? As outras não.

Minha relação com futebol não surgiu do nada, não nasceu depois que a Milene Domingues se tornou a rainha das embaixadinhas ou quando a Marta e companhia fizeram a torcida brasileira cobrar da seleção masculina de futebol que “jogassem como uma mulher” nas Olimpíadas do Rio. A paixão nasceu em casa, em uma casa onde as cores que predominam são o preto e branco. O alvinegro do Corinthians. Alvinegro esse que eu também usava na infância, antes de mudar para Joinville e conhecer o Tricolor. A partir dessa nossa “apresentação”, o coração ganhou uma cor a mais, de preto e branco, ele passou a ser preto, branco e vermelho.

Apesar de o coração ser Tricolor, a cor que predomina sob meus pés é o verde. Não, não é o verde do Palmeiras ou da Chapecoense. É o verde daquele setor onde, em cada jogo do JEC, os gritos não cessam. Sejam de apoio ou de cobrança. É no setor verde da Arena Joinville que muitas lágrimas são derramadas, de alegria e de tristeza. Foi no setor verde que o empate contra o América, em 2010, me fez ir às lágrimas porque encerrava o sonho de sair do fundo do poço – choro inútil porque a alegria veio depois, no Tribunal. Foi naquelas arquibancadas de cimento que vi meu time do coração, o time que cravou mais uma cor no meu peito alvinegro de família, fazer uma campanha praticamente irreparável em 2011, levantando a primeira taça nacional de um clube tão jovem, mais jovem que meus pais.

Foram muitas alegrias e tristezas vividas nessa arquibancada, mas também é lá que me pego pensando, no intervalo de cada jogo, o quanto aquele discurso da internet é hipócrita. O quanto a ação é diferente do discurso. Aqui, na nossa cidade que, quando respira futebol, respira o JEC, único time da cidade e de muitos joinvilenses, a presença feminina nas arquibancadas é significativa. Nas tardes de domingo, geralmente de sol durante o Campeonato Catarinense, não é difícil encontrar mulheres nos jogos, muitas delas acompanhando homens. Pais, irmãos, namorados, maridos. Ali, naquele mesmo setor verde, também é comum ver mulheres no meio da torcida organizada, não como meras coadjuvantes, mas como protagonistas. Elas representam um bom número da bateria da torcida, um bom número da torcida. Elas cantam, elas gritam, elas apoiam e também cobram. Enquanto os 15 minutos de intervalo correm, não é difícil pensar que, infelizmente, os estádios não são exatamente um local que acolhe as mulheres, como talvez seja aqui. Quantas e quantas torcidas não contam com a presença de mulheres desempenhando papéis importantes e não como meras espectadoras do espetáculo que se desenrola na arquibancada durante os 90 minutos? Quantas de nós pensam exatamente naquele discurso bonito das redes sociais, mas vivencia outra realidade?

Quando comecei a frequentar aquele setor verde, com certo receio, admito, passei a me sentir uma privilegiada. Respeito. Foi o que encontrei. Ao longo dos anos, de muitos jogos em casa, de muitas viagens, o respeito se manteve. E é o que eu desejaria encontrar em cada estádio do Brasil. Em cada esquina, em cada rua, em cada viela. Respeito. Hoje, no Dia Internacional da Mulher, as “homenagens” inundam as redes sociais de canais esportivos, de times de futebol, mas até que ponto essa valorização chega no dia a dia dessas mesmas emissoras e clubes? Não vai muito longe, garanto. Aqui mesmo temos um exemplo. Onde está o investimento em futebol feminino, JEC? Tudo bem que a palavra “investimento” causa arrepios nos torcedores que hoje assistem o clube entrar em uma crise que pode fazer com que voltemos àquela realidade de 2009 – que o universo nos proteja –, mas em que momento se cogitou valorizar, de fato, a mulher, seja ela torcedora, seja ela atleta? Não é liberando a entrada em um jogo que se valoriza a mulher, Joinville.

Em um país onde, sabidamente, o futebol feminino é colocado em planos tão inferiores ao futebol masculino que sequer posso mensurar, o reflexo surge nas arquibancadas, onde mulheres continuam sendo objetificadas. Onde mulher “não entende de futebol”, “não sabe o que é um impedimento”. Onde mulher só frequenta estádios, treinos, cobra jogadores e diretoria “pra chamar a atenção de macho”. Isso, sem entrar no mérito das mulheres que levantam a bandeirinha ou marcam um pênalti para o adversário, aquelas que foram além e seguiram carreira lá, dentro de campo. Aí a coisa piora mais ainda, porque os xingamentos não conhecem limites.

Portanto, jequeanos ou não, aprendam: a minha relação – e a de muitas mulheres – é tão ou mais intensa do que a sua, que muitas vezes se limita a esbravejar contra a Argentina – que aliás, tem meu amor há muito tempo – ou contra o Avaí. A minha relação com o futebol vai além dos momentos de glória, dos momentos em que nosso JEC fazia partidas irretocáveis e vencia tudo dentro de casa. Essa relação passou por muita turbulência, muito momento de choro, de tristeza, tive muita DR com esse time enquanto voltava de derrotas como aquela goleada para o Camboriuense, ou dos jogos em domingos pela manhã disputando a Copa Santa Catarina, quando o time tinha um calendário limitado a quase cinco meses. Passamos muita coisa, eu e o JEC, eu e o futebol, e não será o seu machismo, torcedor sabe tudo, que irá acabar com isso. Se anos sem série não acabaram com esse amor, vocês não acham mesmo que é um “não sabe nem o nome do camisa 10” que vai acabar né?

Estamos muito longe de ver aquele discurso na prática, de ver que, de fato, vocês, homens, sabem, aceitam e respeitam que nosso lugar é sim na arquibancada, no alambrado e onde mais quisermos, inclusive dentro de campo.

“Sentimento bipolar”

Letícia Back Rachadel, estudante

Torcer para o Joinville é algo que podemos dizer que é praticamente igual ao meu amor por chocolate nos dias de TPM, é dizer que tem um único amor no coração, que o único “homem” da sua vida é o Joinville Esporte Clube. É chorar, comemorar, vibrar, torcer, ter todos os tipos de sentimento possíveis. É se tornar praticamente uma pessoa bipolar com seus sentimentos: uma hora está animada, outra hora preocupada, revoltada, mas no final tudo que mais importa é o amor e o sentimento que, independente de tudo, vai existir para sempre.

“Nunca desistir”

Giselle Iracema da Silva, integrante do movimento “Mulher Também Entende de Futebol”

Ser mulher e jequeana é:

  • Contar as horas pra ver nosso time entrar em campo.
  • É não ter medo de chuva, e não ter vergonha de chorar e de gritar como uma louca assistindo ao jogo.
  • É ter orgulho em ensinar nosso filhos a amar este clube incondicionalmente,como uma mãe ama um filho.
  • É entrar na Arena e esquecer as desigualdades, para não existir lá dentro diferença por sexo, gênero ou cor.
  • É sorrir e chorar, mas acima de tudo é ter orgulho desta vestir essa camisa.
  • É como estar em uma montanha russa: às vezes estamos em cima, às vezes estamos embaixo, mas sempre chegamos no final felizes e querendo mais dessa adrenalina novamente.
  • É união, e através desta união somos mais fortes, e só assim conseguimos grandes vitórias.

Vai muito além de falar para alguém que seu time do coração se chama Joinville Esporte Clube e além de vibrar com uma nova vitória ou de ficar triste após uma derrota. É carregar no peito uma parte da historia do maior clube de Santa Catarina, o único octacampeão estadual. Mas nunca desistir, porque somos mulheres e guerreiras, e pelo JEC sempre lutaremos. Parabéns, mulheres jequeanas, pelo nosso dia!

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